Ninguém pode negar: o repertório é de primeira, e o intérprete - Agnaldo Rayol, no auge da popularidade em 1968 - está brilhante como sempre. Este disco, postado a pedido do Rubens, de São Paulo, me leva a questionar o motivo da sua produção. Qual seria o interesse da gravadora, a Copacabana, e a razão que levou o cantor a aceitar o projeto: gravar 12 músicas selecionadas pelo presidente da República. Seria, nos dias atuais, algo como Ivete Sangalo interpretar repertório escolhido pela presidente Dilma Rousseff. A diferença, no caso deste álbum, está no fato de que o presidente em questão é o marechal Artur da Costa e Silva, o mesmo que naquele ano de 1968 faria valer a partir de 13 de dezembro o Ato Institucional Número 5 - mais conhecido como AI-5, considerado o mais duro golpe na democracia e que deu poderes absolutos ao regime militar no Brasil.
O AI-5 foi uma represália ao discurso do deputado Márcio Moreira Alves, que pediu ao povo brasileiro que boicotasse as festividades de 7 de setembro de 1968, protestando assim contra o governo militar. Outro fator teria sido o lançamento da canção "Caminhando" (Pra não dizer que não falei das flores), de Geraldo Vandré, que os militares consideraram uma afronta às Forças Armadas. Em certo trecho, dizia Vandré: "Há soldados armados, amados ou não;/quase todos perdidos, de armas na mão./Nos quartéis lhes ensinam antigas lições/de morrer pela pátria e viver sem razão".
É de se estranhar que, mesmo diante deste cenário político e social, seja apresentado ao público este projeto que só beneficiou o ditador. Afinal, ao usar a imagem e o prestígio do Agnaldo Rayol - que habilmente não aparece na capa - o governo militar delineou a "faceta cultural" do presidente junto a opinião pública. Passou, aos menos informados, a ideia de que era um homem ligado à família, como sugere a imagem da capa, e à cultura. Na verdade - por meio do AI-5 - Costa e Silva instituiu a censura nos meios de comunicação e no conteúdo de toda a produção cultural e artística. Nunca li referência do Agnaldo Rayol sobre este disco. Gostaria muito de saber o que ele teria a comentar sobre o projeto. Fico também imaginando como teria sido a reação do Chico Buarque ao saber que a sua "Carolina" foi uma das doze músicas preferidas do presidente.(fonte:http://sanduichemusical.blogspot.com.br/2012/04/agnaldo-rayol-as-minhas-preferidas-lp.html)
1968 - Copacabana
FAIXAS DESTE ALBUM
1 Ave Maria do Morro (Herivelto Martins)
2 Minha terra (Waldemar Henrique)
3 Feitio de oração (Vadico, Noel Rosa)
4 Prenda minha (Folclore gaúcho)
5 Chão de estrelas (Silvio Caldas, Orestes Barbosa)
6 Canta Brasil (David Nasser, Alcyr Pires Vermelho)
7 Perfil de São Paulo (Francisco de Assis Bezerra de Menezes)
8 Lamento (Vinicius de Moraes, Pixinguinha)
9 Carolina (Chico Buarque)
10 Noite cheia de estrelas (Candido das Neves)
11 O que eu gosto de você (Silvio César)
12 Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
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